LEMBRANÇAS DO ‘BOM VELHINHO’ – crônica

Fizesse chuva ou sol escaldante, o que sei é que todos os anos ele aparecia em nossa casa. Para tanto, bastava o mês de novembro anunciar os últimos dias. Daí, nós até fazíamos apostas para ver o dia da chegada do ‘baixinho mal-humorado’. Geralmente, quem tirava o segundo fim de semana de dezembro, na bolsa de aposta, tinha o ‘bilhete premiado’.
É bem verdade que os mais novos dessa numerosa família, como eu e minha irmã caçula, nutríamos sempre a esperança de que receberíamos algum presente dele. Qual nada… o ‘homem’ era duro na queda e nunca trazia ‘lembrancinhas’ para os netos! O jeito, então, era torcer para que a temporada de férias dele, no ‘sul maravilha’, fosse curta ou que ele tivesse vontade de visitar o outro filho, em Florianópolis. “Céus, até quando nós seremos os ‘escolhidos’ do vovô”, eu perguntava para minha irmã caçula. Coisa de criança!

O fato é que o meu dia começava muito cedo – na banca de jornal do seu Chico -, para pagar pelo jornal que o vovô pedira “emprestado” para consultar algo, sabe como é?! E para piorar, quase sempre eu era o neto ‘premiado’ para acompanhar o ‘vovô Ezequiel’ nas andanças pelo centro do Rio de Janeiro. Meu Deus do Céu, o velhinho tinha uma disposição incrível e me dava uma tremenda canseira. Era um tal de entrar e sair de lojas para ver o preço das coisas que vocês não podem imaginar. Eu chegava morto em casa, no final da manhã, varado de fome e louco para deitar no beliche do quarto.
Passados alguns dias, nós já estávamos acostumados ao ritmo dele e conseguíamos antever as futuras ‘missões’. Ir para a Cinelândia, por exemplo, era tarefa certa. Porquanto o vovô adorava se sentar no Bar Amarelinho e ficar ‘espiando’ as moças passarem. Ele nem conseguia disfarçar… Chegava até a rodar a cadeira para poder acompanhar o rebolado delas!

No entanto, havia um ritual que ele praticava e que muito nos intrigava: ensaiar o ‘discurso de improviso’ que faria na ceia de Natal. Ah, minha gente, nisso ele era mestre. Ficava horas a fio balbuciando frases ou palavras que iria empregar no seu longo discurso. E pelo jeito, ele media cuidadosamente as palavras, ordenando-as de modo a provocar reações previsíveis nos ‘ouvintes’.

Sendo assim, quando os preparativos para a montagem da mesa do jantar começavam, aí, ninguém mais encontrava o vovô. Ele se enclausurava de um jeito, que mais parecia um fantasma escondido. Somente quando mamãe chamava os filhos para circundarem a mesa, tendo na cabeceira o papai, é que o vovô aparecia demonstrando ‘surpresa’…
O diabo é que nenhum dos seis filhos tinha autorização de pegar algo na mesa da ceia, sem que houvesse antes as boas-vindas do papai ao vovô e o ‘improvisado’ discurso do seu Ezequiel Menezes. Com sorte, isso demorava cerca de trinta minutos, dependendo do ano… E naquele Natal, em especial, o velho Ezequiel estava afiado e resolveu contar a saga dos Menezes, de Messejana a Aracati, passando por Sobral e Fortaleza. Foi de lascar, minha gente… uma hora e dezoito minutos contados pelo meu desesperado estômago!

Visivelmente emocionado, papai ainda pretendia agradecer pelas palavras do vovô. Mamãe, porém, sorrindo para todos, sugeriu que ele nos autorizasse iniciar a ceia. Ufa!
O “gran finale”, com certeza, era a entrega dos presentes. E aí, meus amigos, todos nós éramos obrigados a agradecer ao vovô. É que ele, costumeiramente, tirava do bolso da calça a velha carteira de dinheiro e retirava uma nota de cinco cruzeiros para cada neto. Mal dava para comprar um pirulito.

De todo modo, aí de nós se esquecêssemos de agradecer ao ‘bom velhinho’ pelo generoso presente…

( Canelau posando no Natal de 1960 )

Natal

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...