MEU ENCONTRO COM ‘MILES DAVIS’ – crônica

Verdade é que naquela época o Boulevard de Magenta já era uma avenida bastante movimentada. Mesmo assim, curiosamente, quase todos se conheciam no charmoso bairro parisiense. Tudo bem que eu acabara de chegar de viagem e me movia com ‘aquele receio’ que o turista estrangeiro tem em não conhecer o lugar. Por isso, procurei logo me adaptar ao ritmo da região, principalmente, à noite. A exceção era o entorno da Gare du Nord, que estava sempre agitada: de dia ou de noite! É que turista adora uma estação de trem… Fazer o quê?!

Quanto ao hotel, sinceramente, não era lá essas coisas. Como é de costume naquelas bandas não há banheiro nos quartos e a lavanderia fica no subsolo, o que nos obriga a um tremendo ‘suadouro’. Paciência! O lado bom da estória é que o meu quarto ficava na última porta do corredor, e assim, não podia ouvir os latidos dos cachorros dos primeiros quartos. Eta! povinho para gostar de cachorro!

Uma semana depois da minha chegada, eu vislumbrei no primeiro quarto do corredor um jovem negro, bem-apessoado, deitado na cama com um trompete nas mãos. Fiquei curioso e atrasei meu passo na esperança de ouvir algum som. Foi quando surgiu o primeiro sopro. Céus! Aquilo parecia algo vindo dos anjos: melancólico e elegante…
Todos os dias de manhã, já bem cedo, com uma pequena sacola nas mãos eu fingia que ia às compras. Ao me aproximar do quarto, que mantinha sempre as portas abertas, eu sentia quase um calafrio de tanta emoção. E ele, como que percebendo, passou a me cumprimentar com a cabeça balançando e um enorme sorriso branco no rosto.
Contudo, sabe como é brasileiro, inda por cima cearense: não me contive e parei na porta do quarto daquele ‘santo’. Indiferente, ele continuou dedilhando o trompete como quem acaricia uma linda mulher. Perguntou-me se eu era músico e eu disse que não, que era apenas um iniciante professor de química. “Logo de química?”, respondeu-me com impecável sotaque francês.

Nem preciso dizer que passei a frequentar aquele quarto todos os dias, minha gente. E que, por algum motivo que nunca entendi, ele fazia questão de ouvir as minhas impressões sobre cada composição. Sugeriu até que eu fosse com ele ao encontro com o cineasta, para quem ele estava produzindo o álbum da trilha sonora do filme.
Voilà”, de repente, lá estávamos, Miles, Louis Malle e eu, em um apartamento na margem do rio Sena, em Montparnasse, bem próximo ao Observatório de Paris. Foi quando o fabuloso cineasta exibiu as primeiras cenas do seu filme para Miles, já com as melodias embalando a dramática estória. Foi algo impressionante, isso sim!

Segundo eu soube depois, por conta do seu talento, Miles conheceu Pablo Picasso, frequentou Cafés com Jean-Paul Sartre e teve um tórrido romance com Juliette Gréco, famosa cantora e atriz francesa.

O que sei dizer é que poucas semanas depois daquele memorável encontro, Miles Davis veio ao meu quarto para se despedir, trazendo nas mãos uma cópia prévia do disco. Na capa, além da dedicatória, havia uma foto de Jeanne Moreau caminhando pela avenida dos Champs-Élysées. Linda. Enigmática. Arrebatadora.

Selamos a nossa despedida com um forte e sentido abraço. Foi quando convidei Miles a conhecer o Brasil, em especial o Nordeste, aonde iria ouvir sons semelhantes aos dele… vindos de outros instrumentos também extraordinários: rabeca, sanfona e tantos mais.
Depois disso, durante quase quinze anos mantive correspondência com aquele gênio musical. Em sua última carta, que recebi no Natal de 1990, Miles declarou-me, com orgulho, que aquele curto tempo vivido em Paris tinha sido, para ele, os dias mais extraordinários de sua vida.

Meu Deus do Céu… acho que ninguém vai acreditar nessa história!

Miles_Davis_black

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...