OS  NÁUFRAGOS:  EU,  JOHN  LEE  HOOKER  E  O  JACK  DANIEL’S ( crônica )

Verdade é que eu cheguei em casa já bastante esbaforido, irritado com o trânsito infernal  que consumira mais de uma hora de deslocamento. E aí, após o demorado banho ‘restaurador’, eu liguei o ar condicionado da sala que, embora barulhento, ainda soprava um bom ventinho… Bendita tecnologia de 1978!

Ao passar pela cozinha, vislumbrei a garrafa de ‘Jack Daniel’s’. Sim, porque não, pensei?! Afinal, aquele momento era bem apropriado e, por certo, merecia a dose redentora. Algumas pedras de gelo e o copo largo e baixo de cristal, presente de minha querida mãe, foram suficientes para iniciar os ‘trabalhos’. Ah! O primeiro gole foi precioso: céus! Parecia até ‘néctar dos deuses’, tal o relaxamento provocado. Além disso, como uma coisa leva a outra, do sofá eu divisei o CD adquirido na semana anterior, ainda lacrado… John Lee Hooker, “porque não”, perguntei-me mais vez?!

Contudo, covenhamos, tem coisas que precisam de ‘rito’. Porquanto não podem ser banalizadas. Por isso, fui até a cozinha, que ficava a quatro passos da sala, que também era o quarto de dormir… Sim!, um mundo pequeno ao meu redor, né? Paciência!

Então, cortei umas quatro fatias de queijo provolone e piquei em pequenos cubos, espetados por palitos. Após isso, deitei-me na rede cearense que atravessava o quarto, pus a banqueta ao meu lado e respirei profundamente, como se precisasse expelir aquela atmosfera de tensão e raiva para fora dos meus pulmões. Ufa!

Nessa altura do campeonato, meus amigos, a guitarra de John Lee Hooker já ecoava pelo ambiente, tornando a atmosfera contaminada pelo aroma do Gudan e do Jack Daniel’s mais íntima e convidativa. Afinal, tudo conspirava. De tal modo que não havia como evitar certas recordações…

Eram lembranças da última viagem pelos Cânions do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, cujo passeio deixara marcas permanentes. O que ninguém sabia, por certo, é que dentro daquele barco vazavam muitas angústias represadas, envoltas em tácito silêncio.

Lembro apenas que me debrucei na grade do barco enquanto ele penetrava pelas barrancas do rio. No meu pensamento, somente o filho ou a filha que eu poderia ter se ela tivesse aceitado o momento. Hoje, minha gente, esse filho ou filha teria uns quarenta anos de idade…

Meus Deus, nem consigo imaginar o que isso representaria para minha vida!

 

 

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...